Roça Office · Inovação
Trabalho remoto e vida coletiva na roça. Uma experiência que virou episódio de 28 min na Globo.
Memórias · Refazenda Rio Xopotó
Por Gustavo Faria
Refazenda, cheguei com 17 anos de idade acreditando que a pandemia ia acabar e tudo ia voltar ao normal, porém não. Essa minha história com a Refazenda é muito grande, realmente precisaria de um livro sobre tudo o que eu aprendi e vivenciei por lá.
Uma casa coletiva no interior de Minas Gerais, localizada em Desterro do Melo, próximo a Barbacena, a cidade em que fui nascido e criado.
A casa, inicialmente, tinha o propósito de acolher pessoas que estavam vivendo trancadas durante a pandemia. Mas tínhamos acordos, e antes de chegar lá era preciso ter feito exame confirmando que a pessoa não estava com covid-19, não ter contato com pessoas ou aglomerações, e fazer o percurso até a casa totalmente seguro. Incentivávamos isso sempre, por essas medidas protetivas que tínhamos com a região local e com as pessoas que já estavam na casa. Desterro do Melo teve o primeiro caso de covid depois de muito tempo, enquanto isso, em São Paulo, era morte por minuto.
A casa tinha uma corrente de água ao seu redor, mais conhecida como Rio Xopotó. Foi assim também que nomeamos dois anfitriões, Rio e Xopotó, dois cachorros vira-latas, irmãos e com personalidades muito diferentes. Xopotó era o rei da casa, biscoiteiro, dengoso, adorava carinho, fazia cara de dó e, quando você menos esperava, estava debaixo da sua coberta, todo mundo passava a mão na cabeça dele. Rio, um cachorro tipo salsicha, bravo, latia grosso, não tinha medo de nada, porém morreu muito novo, e suas aventuras o levaram à morte.
Produzindo cogumelos na Refazenda
Conhecemos a cidade, um lugar lindo, com 3 mil habitantes, com tantas pessoas incríveis e inteligentes. Cada canto era muito bonito, e a comida eu nem preciso falar muito, porque digo com a maior certeza que qualquer cidade do interior de Minas tem comida boa. A natureza e as montanhas ao redor faziam o lugar encantado, uma cidade que tinha três pastelarias no centro e uma igreja enorme na frente da praça. Todo mundo ficava muito encantado e acolhido.
A Refazenda também foi construída por muitos moradores locais, sonho coletivo é isso.
Toda relação que acontecia dentro da casa era com muito respeito, e a comida era a principal delas. Tínhamos uma horta enorme e, depois, produzimos cogumelos, que aprendemos com um amigo que sempre vinha nos ensinar como os fungos funcionam, sobre alimentação saudável e sobre a ciência de onde vinha cada coisa. Os produtores locais forneciam grande parte da nossa alimentação, e tínhamos uma relação bem amigável com eles.
O varal da Refazenda
As pessoas que passavam por lá eram diversas, e ninguém se sentia sozinho, o poder da conexão em uma casa colaborativa acontece muito rápido. Não tínhamos cozinheira nem diarista, então dividíamos as funções entre as pessoas que estavam na casa, e isso fortalecia o fluxo do lugar. Quando chegava uma pessoa, provavelmente ela entrava na lista de tarefas da casa, e sempre havia mais alguém na tarefa escolhida, e isso criava laços muito fortes entre as pessoas.
Sol e cascatinha. Era um descanso bem intencional, ficar na grama e tomar banho em uma cascata de água corrente. Esse era um dos momentos de conexão.
Fogão de lenha e prosa. Nas noites frias, esse era um ponto de encontro dentro da casa. Conversas, risadas e danças aconteciam ali, às vezes rolava o jogo de UNO, e cada pessoa tinha uma regra, acabamos desenhando, assim, as próprias regras da casa!
A minha relação com a casa era muito profunda, o lugar era numa fazenda onde já tinham morado diversas pessoas, era uma senhora, essa casa, tão velha, mas tão velha (e não estou falando de estrutura). Uma vez uma família veio nos visitar, tinha duas irmãs que haviam nascido dentro dessa casa, com 87 e 82 anos. Elas tinham um ritual que era ir até a pedra e gritar para ouvir o eco. A pedra atraía todos que passavam pela casa, era plana, no alto de um morro, bem próxima da casa, o último lugar em que o sol batia no final da tarde.
A Pedra do Horizonte trazia muitas reflexões para quem sentava nela. À sua frente estava um mar de montanhas, e no início desse mar ficava a casa do Sr. Dino, nosso vizinho mais próximo. Se eu disse que o Xopotó era um jovem senhor, do Sr. Dino digo o contrário, um senhor jovem e forte. Ele tinha mais de 60 espécies de galinhas, patos e alguns cachorros que ficavam presos na coleira. Era ele quem vendia ovos caipiras para nós, muitas vezes, quando a gente sentava na Pedra do Horizonte, avistávamos ele subindo com uma cestinha de ovos e, no ombro, um cacho enorme de bananas. Era o que ele sempre trazia para nós e pendurava na frente da porta, e além de nós comermos as bananas, os pássaros e os morcegos também se beneficiavam da banana docinha.
Sr. Dino, nosso vizinho mais próximo
E isso foi um relato de uma pequena porcentagem que eu vivi na Refazenda, lá eu aprendi muito, com as pessoas, natureza, bichos, comunidades, e muito mais, foi uma faculdade profunda que eu vivenciei por lá, anfitriando pessoas de todos os lugares do mundo com bagagem e conhecimentos sempre muito diferentes.