Os anfitriões da culinária mineira
Memórias · Vó Xopotó
Por Gustavo Faria
A Vó Xopotó foi uma marca criada para dar escala e visibilidade aos produtos de agricultores familiares de Desterro do Melo, no interior de Minas Gerais. A ideia era simples e profunda: conectar quem produz com quem consome, sem apagar a história de quem faz.
Meu papel: fui cocriador e articulador da marca, ao lado de Mallu Vasconcellos. Conduzi o relacionamento com os produtores rurais, ajudei a estruturar os produtos — cestas, kits, combos sazonais — e fui o responsável por contar as histórias de quem estava por trás de cada item. Minha função era ser a ponte entre o território e o mercado, e construir valor dos seus produtos com os produtores, valores além do financeiro.
Um dos produtos da Vó Xopotó
Vó Xopotó foi uma marca que eu criei junto com Mallu Vasconcellos, fundadora da PAAPS e também minha companheira. A ideia nasceu de algo muito simples: a vontade de beneficiar produtores rurais e agricultores locais de Desterro do Melo.
Na Refazenda, nós consumíamos muitos produtos da agricultura familiar. Foi nessa convivência com os produtores que começamos a perceber uma dor que aparecia de forma recorrente. Muitos tinham produtos de enorme qualidade, mas não tinham recursos, estrutura ou apoio para escalar suas produções ou pensar em caminhos como a exportação. Existia talento, mas faltavam pontes que conectassem esse trabalho a outros mercados.
Foi desse encontro com essa realidade que surgiu a ideia da Vó Xopotó. O nome não veio por acaso. "Vó" porque os alimentos, doces e produtos feitos por essas pessoas tinham algo que lembrava cuidado, aconchego e afeto, como aquelas comidas que parecem abraçar a gente. "Xopotó" porque na região onde esses produtores vivem passa o Rio Xopotó, um rio que também marca a paisagem e a vida daquele território. Hoje em dia, esse rio está em risco por conta da mineração recém-chegada na região, e as mobilizações locais de proteção têm sido admiráveis.
A partir disso, criamos um site e começamos a desenvolver produtos que pudessem ganhar escala sem perder a identidade de quem produzia. Surgiram ideias como cestas de Natal, kits para aniversários e outras combinações de produtos que reuniam diferentes produtores. Mas, mais importante do que vender os produtos, era contar a história de cada um deles. Sempre falávamos de quem fazia aquele doce, aquele café, aquela geleia, e de onde vinha aquele trabalho. Era uma forma de fortalecer esses trabalhadores rurais e aproximar as pessoas de quem produz o alimento que chega até a mesa.
Cestas e kits sazonais reunindo diferentes produtores
Ao longo desse processo, construímos um relacionamento muito bonito com os produtores. Conversávamos, trocávamos ideias, apresentávamos caminhos possíveis e tentávamos abrir algumas portas.
A Vó Xopotó acabou sendo um projeto de curto prazo. E isso também faz parte da história. Naquele momento eu estava chegando ao fim do meu ciclo na Refazenda Rio Xopotó e começando a ser chamado para outros projetos. A distância de Desterro do Melo tornava cada vez mais difícil continuar desenvolvendo a marca com a presença e a dedicação delicada e respeitosa que ela precisava.
Mesmo assim, a Vó Xopotó deixou algo muito profundo em mim. Ela me ensinou a olhar para o alimento de outra forma. Cada produto que chega até a nossa mesa tem sempre alguém antes cuidando, plantando, colhendo, preparando. Nem sempre essas histórias aparecem.
A Vó Xopotó foi um aprendizado enorme. Um tipo de aprendizado que nenhuma faculdade ensina, mas que muda a forma como a gente enxerga o trabalho, as pessoas e o território de onde tudo começa: um verdadeiro projeto de impacto de sucesso.
Rastros que deixei
Pessoas tocadas: produtores rurais de Desterro do Melo que, pela primeira vez, viram a história deles sendo contada com cuidado. Consumidores que passaram a enxergar o que está por trás do que chega à mesa. E eu mesmo, que saí desse projeto com uma visão diferente do que é trabalho com propósito.